{"id":580,"date":"2014-09-24T15:59:26","date_gmt":"2014-09-24T18:59:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.gruposamaritano.com.br\/ges\/?p=580"},"modified":"2014-09-24T15:59:26","modified_gmt":"2014-09-24T18:59:26","slug":"a-primavera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.gruposamaritano.com.br\/ges\/2014\/09\/a-primavera\/","title":{"rendered":"A primavera"},"content":{"rendered":"<p>A primavera chegar\u00e1, mesmo que ningu\u00e9m mais saiba seu nome, nem acredite no calend\u00e1rio, nem possua jardim para receb\u00ea-la. A inclina\u00e7\u00e3o do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo ch\u00e3o, come\u00e7am a preparar sua vida para a primavera que chega.<\/p>\n<p><!--more-->Finos clarins que n\u00e3o ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das ra\u00edzes, \u2014 e arautos sutis acordar\u00e3o as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no esp\u00edrito das flores.<\/p>\n<p>H\u00e1 bosques de rododendros que eram verdes e j\u00e1 est\u00e3o todos cor-de-rosa, como os pal\u00e1cios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos come\u00e7am a ensaiar as \u00e1rias tradicionais de sua na\u00e7\u00e3o. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, \u2014 e certamente conversam: mas t\u00e3o baixinho que n\u00e3o se entende.<\/p>\n<p>Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo c\u00e9u o primeiro raio de sol.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma primavera diferente, com as matas intactas, as \u00e1rvores cobertas de folhas, \u2014 e s\u00f3 os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os bra\u00e7os carregados de flores, e vem dan\u00e7ar neste mundo c\u00e1lido, de incessante luz.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 certo que a primavera chega. \u00c9 certo que a vida n\u00e3o se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens ter\u00e3o a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do c\u00e9u. E os p\u00e1ssaros ser\u00e3o outros, com outros cantos e outros h\u00e1bitos, \u2014 e os ouvidos que por acaso os ouvirem n\u00e3o ter\u00e3o nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.<\/p>\n<p>Enquanto h\u00e1 primavera, esta primavera natural, prestemos aten\u00e7\u00e3o ao sussurro dos passarinhos novos, que d\u00e3o beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas \u00e1rvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente est\u00e3o sendo tecidos os manac\u00e1s roxos e brancos; e a euf\u00f3rbia se vai tornando pulqu\u00e9rrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gard\u00eanias ainda est\u00e3o sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.<\/p>\n<p>Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lan\u00e7ado ao vento, \u2014 por fidelidade \u00e0 obscura semente, ao que vem, na rota\u00e7\u00e3o da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida \u2014 e ef\u00eamera.<\/p>\n<p><em>Cec\u00edlia Meireles<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primavera chegar\u00e1, mesmo que ningu\u00e9m mais saiba seu nome, nem acredite no calend\u00e1rio, nem possua jardim para receb\u00ea-la. 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