{"id":1521,"date":"2016-11-08T16:44:52","date_gmt":"2016-11-08T19:44:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.gruposamaritano.com.br\/ges\/?p=1521"},"modified":"2016-11-08T16:44:52","modified_gmt":"2016-11-08T19:44:52","slug":"quando-o-filho-se-torna-pai-de-seu-pai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.gruposamaritano.com.br\/ges\/2016\/11\/quando-o-filho-se-torna-pai-de-seu-pai\/","title":{"rendered":"Quando o Filho se torna Pai de seu Pai&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma quebra na hist\u00f3ria familiar onde as idades se acumulam e se sobrep\u00f5em<br \/>\ne a ordem natural n\u00e3o tem sentido: \u00e9 quando o filho se torna pai de seu pai.<\/p>\n<p>\u00c9 quando o pai envelhece e come\u00e7a a trotear como se estivesse dentro de uma<br \/>\nn\u00e9voa. Lento, devagar, impreciso.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>\u00c9 quando aquele pai que segurava com for\u00e7a nossa m\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o tem como se<br \/>\nlevantar sozinho. \u00c9 quando aquele pai, outrora firme e intranspon\u00edvel,<br \/>\nenfraquece de vez e demora o dobro da respira\u00e7\u00e3o para sair de seu lugar.<\/p>\n<p>\u00c9 quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje s\u00f3 suspira, s\u00f3<br \/>\ngeme, s\u00f3 procura onde \u00e9 a porta e onde \u00e9 a janela \u2013 tudo \u00e9 corredor, tudo \u00e9<br \/>\nlonge.<\/p>\n<p>\u00c9 quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua<br \/>\npr\u00f3pria roupa e n\u00e3o lembrar\u00e1 de seus rem\u00e9dios.<\/p>\n<p>E n\u00f3s, como filhos, n\u00e3o faremos outra coisa sen\u00e3o trocar de papel e aceitar<br \/>\nque somos respons\u00e1veis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de<br \/>\nnossa vida para morrer em paz.<\/p>\n<p>Todo filho \u00e9 pai da morte de seu pai.<\/p>\n<p>Ou, quem sabe, a velhice do pai e da m\u00e3e seja curiosamente nossa \u00faltima<br \/>\ngravidez. Nosso \u00faltimo ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos<br \/>\nforam confiados ao longo de d\u00e9cadas, de retribuir o amor com a amizade da<br \/>\nescolta.<\/p>\n<p>E assim como mudamos a casa para atender nossos beb\u00eas, tapando tomadas e<br \/>\ncolocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos m\u00f3veis para criar os<br \/>\nnossos pais.<\/p>\n<p>Uma das primeiras transforma\u00e7\u00f5es acontece no banheiro.<\/p>\n<p>Seremos pais de nossos pais na hora de p\u00f4r uma barra no box do chuveiro.<\/p>\n<p>A barra \u00e9 emblem\u00e1tica. A barra \u00e9 simb\u00f3lica. A barra \u00e9 inaugurar um cotovelo<br \/>\ndas \u00e1guas.<\/p>\n<p>Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora \u00e9 um temporal para os p\u00e9s<br \/>\nidosos de nossos protetores. N\u00e3o podemos abandon\u00e1-los em nenhum momento,<br \/>\ninventaremos nossos bra\u00e7os nas paredes.<\/p>\n<p>A casa de quem cuida dos pais tem bra\u00e7os dos filhos pelas paredes. Nossos<br \/>\nbra\u00e7os estar\u00e3o espalhados, sob a forma de corrim\u00f5es.<\/p>\n<p>Pois envelhecer \u00e9 andar de m\u00e3os dadas com os objetos, envelhecer \u00e9 subir<br \/>\nescada mesmo sem degraus.<\/p>\n<p>Seremos estranhos em nossa resid\u00eancia. Observaremos cada detalhe com pavor e<br \/>\ndesconhecimento, com d\u00favida e preocupa\u00e7\u00e3o. Seremos arquitetos, decoradores,<br \/>\nengenheiros frustrados. Como n\u00e3o previmos que os pais adoecem e precisariam<br \/>\nda gente?<\/p>\n<p>Nos arrependeremos dos sof\u00e1s, das est\u00e1tuas e do acesso caracol, nos<br \/>\narrependeremos de cada obst\u00e1culo e tapete.<\/p>\n<p>E feliz do filho que \u00e9 pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que<br \/>\naparece somente no enterro e n\u00e3o se despede um pouco por dia.<\/p>\n<p>Meu amigo Jos\u00e9 Klein acompanhou o pai at\u00e9 seus derradeiros minutos.<\/p>\n<p>No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando<br \/>\nrepor os len\u00e7\u00f3is, quando Z\u00e9 gritou de sua cadeira:<\/p>\n<p>Deixa que eu ajudo.<\/p>\n<p>Reuniu suas for\u00e7as e pegou pela primeira vez seu pai no colo.<\/p>\n<p>Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.<\/p>\n<p>Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo c\u00e2ncer: pequeno, enrugado,<br \/>\nfr\u00e1gil, tremendo.<\/p>\n<p>Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente \u00e0 sua inf\u00e2ncia, um tempo<br \/>\nequivalente \u00e0 sua adolesc\u00eancia, um bom tempo, um tempo intermin\u00e1vel.<\/p>\n<p>Embalou o pai de um lado para o outro.<\/p>\n<p>Aninhou o pai.<\/p>\n<p>Acalmou o pai.<\/p>\n<p>E apenas dizia, sussurrado:<\/p>\n<p>Estou aqui, estou aqui, pai!<\/p>\n<p>O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida \u00e9 que seu filho est\u00e1 ali.<\/p>\n<p>&#8220;Feliz do filho que \u00e9 pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que<br \/>\naparece somente no enterro e n\u00e3o se despede um pouco por dia&#8221;.<\/p>\n<p>Fabr\u00edcio Carpinejar=<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma quebra na hist\u00f3ria familiar onde as idades se acumulam e se sobrep\u00f5em e a ordem natural n\u00e3o tem sentido: \u00e9 quando o filho se torna pai de seu pai. \u00c9 quando o pai envelhece e come\u00e7a a trotear como se estivesse dentro de uma n\u00e9voa. 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