{"id":1447,"date":"2016-09-09T21:41:23","date_gmt":"2016-09-10T00:41:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.gruposamaritano.com.br\/ges\/?p=1447"},"modified":"2016-09-09T21:41:23","modified_gmt":"2016-09-10T00:41:23","slug":"ja-nao-sei","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.gruposamaritano.com.br\/ges\/2016\/09\/ja-nao-sei\/","title":{"rendered":"J\u00e1 n\u00e3o sei&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 n\u00e3o sei em que datas estamos, nesta casa n\u00e3o h\u00e1 folhinhas, e na minha<br \/>\nmem\u00f3ria tudo est\u00e1 revolto. As coisas antigas foram desaparecendo.E eu tamb\u00e9m<br \/>\nfui apagando sem que ningu\u00e9m se desse conta.<br \/>\nQuando a fam\u00edlia cresceu, trocaram-me de quarto. Depois, passaram-me para<br \/>\noutro menor ainda acompanhada das minhas netas, agora ocupo o anexo, no<br \/>\nquintal de tr\u00e1s.<br \/>\n<!--more--><\/p>\n<p>Prometeram-me mudar o vidro partido da janela, mas esqueceram-se. E nas<br \/>\nnoites, que por ali sopra um ventinho gelado aumentam mais as minhas dores<br \/>\nreum\u00e1ticas.<br \/>\nUm dia \u00e0 tarde dei conta que a minha voz desapareceu. Quando falo, os meus<br \/>\nfilhos e netos n\u00e3o me respondem. Conversam sem olhar para mim, como se eu<br \/>\nn\u00e3o estivessem com eles. \u00c1s vezes digo algo, acreditando que apreciar\u00e3o os<br \/>\nmeus conselhos, mas n\u00e3o me olham, nem me respondem, ent\u00e3o retiro-me para o<br \/>\nmeu canto, antes de terminar a caneca de caf\u00e9. Fa\u00e7o isso para que<br \/>\ncompreendam que estou triste e para que me venham procurar e me pe\u00e7am<br \/>\nperd\u00e3o&#8230;<br \/>\nMas ningu\u00e9m vem . No dia seguinte disse lhes:<br \/>\n&#8211; Quando eu morrer, ent\u00e3o sim voc\u00eas ir\u00e3o sentir a minha falta.<br \/>\nE meu neto perguntou:<br \/>\n&#8211; Est\u00e1s viva av\u00f3? (rindo)<br \/>\nEstive tr\u00eas dias a chorar no meu quarto, at\u00e9 que numa certa manh\u00e3, um dos<br \/>\nnetos entrou para guardar umas coisas velhas. Nem bom dia me deu , foi ent\u00e3o<br \/>\nque me convenci de que sou invis\u00edvel.<br \/>\nUma vez os netos vieram dizer-me que ir\u00edamos passear ao campo. Fiquei muito<br \/>\nfeliz, fazia tanto tempo que n\u00e3o sa\u00eda!<br \/>\nFui a primeira a levantar, quis arrumar as coisas com calma, afinal n\u00f3s<br \/>\nvelhos somos mais lentos, assim arranjei-me a tempo de n\u00e3o atras\u00e1-los. Em<br \/>\npouco tempo, todos entravam e sa\u00edam correndo da casa, atirando bolas e<br \/>\nbrinquedos para o carro.<br \/>\nEu j\u00e1 estava pronta e muito alegre, parei na porta e fiquei \u00e0 espera. Quando<br \/>\nse foram embora, compreendi que eu n\u00e3o estava convidada, talvez porque n\u00e3o<br \/>\ncabia no carro. Senti que o cora\u00e7\u00e3o encolhia e o queixo tremia, como algu\u00e9m<br \/>\nque tinha vontade de chorar. Eu os entendo, s\u00e3o jovens, riem, sonham, se<br \/>\nabra\u00e7am, se beijam e eu e eu&#8230;. Antes beijava os meus netos, adorava t\u00ea-los<br \/>\nnos bra\u00e7os, como se fossem meus. E at\u00e9 cantava can\u00e7\u00f5es de embalar que tinha<br \/>\nesquecido. Mas um dia&#8230;<br \/>\nUm dia a minha neta que acabava de ter um beb\u00ea me disse que n\u00e3o era bom que<br \/>\nos velhos beijassem os beb\u00eas por quest\u00f5es de sa\u00fade. Desde ent\u00e3o, n\u00e3o me<br \/>\naproximo mais deles, tenho tanto medo de contagia-los! Eu n\u00e3o tenho magoa<br \/>\ndeles , eu perdoo a todos , porque que culpa t\u00eam eles, de que eu tenha me<br \/>\ntornado invis\u00edvel?<\/p>\n<p>Texto original &#8211; &#8221; El dia que me volvi invisible &#8221;<br \/>\nAutora &#8211; Silvia Castillejon Peral<br \/>\nCidade do M\u00e9xico &#8211; 2002<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 n\u00e3o sei em que datas estamos, nesta casa n\u00e3o h\u00e1 folhinhas, e na minha mem\u00f3ria tudo est\u00e1 revolto. As coisas antigas foram desaparecendo.E eu tamb\u00e9m fui apagando sem que ningu\u00e9m se desse conta. Quando a fam\u00edlia cresceu, trocaram-me de quarto. 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